4 de novembro de 2013

Dreamzzzz...

No primeiro episódio desta história, duas amigas voltaram a encontrar-se, passados anos sem se verem. Aproveitaram e repuseram a conversa em dia.


2º episódio

- Onde vamos esta noite? - pergunta Verónica, atirando-se de costas e de braços abertos para o centro da cama. Cátia, regulando-se pelo espelho, tira os brincos:
- Olha, parte a cama, parte...! Eu é que não a pago!
- Epá, relaxa miúda! Quero lá saber da cama! Tanto quanto sei, temos todo o direito de desmanchar o quarto de hotel todo!
- Ai não temos, não! Pagamos cada coisinha partida!
As amigas tinham decidido partir um fim de semana à aventura, depois do agradável dia passado juntas na cidade onde viviam. Pegaram no mapa da Europa, fixaram ambas a vista na capital do território francês, e gritaram em uníssono e com sotaque: "Párri!!" Desde sempre foram as melhores amigas, crescendo juntas, escola incluída, até ao seu término, quando cada uma foi ao seu emprego, o que as afastou um pouco. Esta era, assim, uma oportunidade rara de desbundarem como antigamente.
- ´Tá bem, que paguemos, quero lá saber... Fogo, não achas que merecemos voltar à adolescência? Desde que trabalho que me sinto uma velha, pá... E já não estávamos juntas assim há anos! Por isso, minha querida, faz-me o favor de seres livre, está bem?
Cátia, já sem brincos, e remexendo o cabelo para o soltar, deixa-se cair num cadeirão almofadado no canto do quarto:
- Ai... tens razão querida, desculpa. Tenho de destressar um pouco. Mas olha, não faço ideia onde vamos esta noite, conheço isto tão bem como tu. Logo vemos, deixa-me descansar um bocadinho que estou exausta da viagem...
- Ui, também eu... Aquela hospedeira irritante, aquele taxista tarado, e esta novidade toda, esgotaram-me! Ai, Paris, Paris... o que nos reservas... - olha para Cátia, e repara que a amiga já dorme. Sorri, e adormece ela também, Verónica.
...
"nock-nock" - ouve-se vindo da porta... Cátia levanta um sobrolho e olha em direção à origem do som, tentando perceber se estava a sonhar ou era mesmo real. Uma segunda batida fê-la ter a certeza que não era sonho. Levantou-se, dirigiu-se à porta e, com uma mão na maçaneta e um ouvido atento, perguntou:
- Quem é?
- Ma'dame, le petit-déjeuner, s'il vous plaît... - responderam do outro lado.
Cátia fica confusa e fala baixo para si própria:
- Ai que agora estão-me a falar francês... - olha para a amiga adormecida sobre a cama e fala-lhe ainda em surdina, mas com mais velocidade no discurso:
- Verónica!! Acorda mulher, 'tão prá'qui a falar francês, não percebo nada!
A amiga abre com dificuldade os olhos e tenta entender o que ouvira de Cátia:
- Hã?... Quem? Franceses? Que é que eles 'tão a dizer?
- Sei lá, qualquer coisa "peti déjenê" ou sei lá eu...
- Isso é pequeno almoço em francês, pá. Tinhas de me acordar? Abre lá a porta ao homem...
- E eu sei lá falar com ele? Vem cá tu, caraças...
Verónica, visivelmente incomodada de lhe ter sido roubado o sono, levanta-se e encaminha-se à amiga:
- 'Tás a ver o que dá passar as aulas de francês a namorar?
- Olha quem fala... E tu em matemática!
- Iá, mas isto é França... - põe a mão por cima da de Cátia, que segura a maçaneta, gira-a para abrir, e olha a amiga - ...não é Matemança!
Verónica abre a porta e surge um imenso carrinho de mão cheio de travessas com pãezinhos, iguarias, doces, chaleiras, cafeteiras, e outros suminhos tantos. As amigas ficam fascinadas com tanta beleza e cor naquele manjar. O moço avança com o carrinho adentro, deixa-o, e estende a palma da mão, aguardando gorjeta. Cátia apronta-se a retirar cinco euros da mala e colocá-los na mão do empregado.
- Merci, mademoiselle - agradece o moço, que pretendia agora sair, não fosse sentir a mão de Cátia ainda sobre a sua. Olha então os olhos de Cátia que, por sua vez, se franzem e se mantêm fixos nos do rapaz.
- Mademoiselle? - questiona o rapaz, desentendido das intenções de Cátia. Vanessa fica ela também surpresa com aquela pausa da amiga. Cátia larga então o jovem e este sai, com um "merci" indeciso. Verónica perscruta a amiga:
- Cátia?... Que foi isso? Apaixonáste-te?
- Não... mas acho que já vi este gajo em algum lado... - mantendo os olhos fixos na porta que o moço acabara de fechar.
- Como assim? De onde o conheces?
- Isso queria eu saber... - gira a cabeça na direcção da amiga e olha-a nos olhos - ...mas até lá não estou descansada...



Não percas o próximo episódio...






1 de julho de 2013

Money... Love...

It's not about the money
It's about love... Just love

Money is outside, you touch it
Love is inside, you feel it

Money can buy short time fake love
Love buys all the money in the world

You may not money someone
But you can love everybody

Money won't always be there for you
Love will

So, please... don't money,
Love!

18 de junho de 2013

Dreamzzzz...

1º episódio

- Cátia!!!
- Hã!!!? - despertou Cátia violentamente, sob o grito da amiga - Que foi? Onde estou?
- Calma miúda, ahahah! Sou eu. Isto é que são oito horas à minha porta? Esperei, esperei, esperei, até que decidi vir eu a tua casa e o que vejo? Tua ainda na cama! Levanta-te, mulher!
Cátia lentamente desliza as pernas para fora da cama e leva a mão à cabeça:
- Sonhei outra vez com ele...
- Ele quem? Espera... não me digas que foi com o tal que nunca conheceste? Ó se faz favor... E por isso ainda estamos aqui! Veste-te que tu precisas é de um café nessa cabeça! Bora!
Cátia dirige-se à casa de banho para aliviar os líquidos acumulados durante a noite, lavar-se e arranjar-se decentemente, e levanta a voz para que Verónica, a amiga que esperava no quarto, a ouvisse:
- Vais-me dizer que isto nunca te aconteceu?
- O quê? Sonhar com gajos que nunca conheci? Óuó... É quase todos os dias! Principalmente se forem bons! É pena é ser só sonho. Porque na realidade nunca são assim - dá uns toques no cabelo, olhando-se ao espelho por cima da cómoda do quarto de Cátia - Tomara eu conhecer um homem como os que a minha imaginação faz.
Minutos depois, Cátia, já aprontada e vestida, pega no braço da amiga e saiem as duas de casa:
- Bora lá, como tu dizias, bem que preciso de um café.
Ao dobrarem a esquina para uma das avenidas mais movimentadas da cidade, onde se encontravam também muitos turistas, as amigas cruzam-se com um homem esbelto, que lhes sorri. Verónica comenta:
- Ui... Aquele deve ser italiano - já a uns passos de distância dele, levanta a voz, como que para ser ouvida - Rasgava-te esse fatinho todo, querido... - vira-se para Cátia - É tipo aquele, o gajo com quem sonhas?
Cátia, sorrindo entretida com a lata da amiga para com o estrangeiro:
- Sei lá, maluca. Acho que o gajo do meu sonho não tem rosto. Ou pelo menos eu nunca me lembro da cara dele.
Verónica, percebendo que o assunto não atava nem desatava, adianta-se ao passo de Cátia, vira-se para ela e bloqueia-lhe o caminho repentinamente:
- Espera lá! Tá na hora de esclarecermos essa tua fantasia. Ora tu sonhas com um gajo que nem conheces, que nunca lhe viste a cara, nem nunca lhe ouviste a voz, certo?
- Sim... Só trocámos umas conversas num fórum online sobre moda, nada mais - confessa Cátia, tentando perceber a que ponto queria a amiga chegar.
- Pois então pode ser um gajo qualquer, ora! Como os que eu sonho, que são simplesmente gajos que a minha imaginação cria. Porque pensas que o tipo com quem sonhas é o mesmo com quem teclas na net?
- Porque assim ele me diz, no sonho.
Verónica, imobilizada, olha nos olhos da amiga, parva com o que tinha ouvido.
- Desculpa? Tás-me a dizer que esse tal de... como é que dizes que ele se chama?
- Versaci, é o nick dele no fórum.
- Ok, então esse tal Versaci... que tu nunca viste, - arregalando os olhos para demonstrar o absurdo - nunca ouviste, nem sequer sabes se é real... disse-te, nos teus sonhos, que é ele mesmo?!
- Iá... e depois? Vais-me chamar maluca?
- Não sei se maluca, se génia. Nem sei em que se enquadra essa cena! Mas lá que é fantástica, é! - retomando o andar, já ao lado da amiga, dirigindo-se ambas ao café do costume - E não tens curiosidade em conhecê-lo?
- Nem por isso... Acho curioso este meu sonho, nada mais - sentando-se à mesa e fazendo, com os dedos, sinal de pedido de dois cafés ao empregado que já conhecia - Acho até que foi o tema que discutimos que mais me interessou.
- Ou seja... - Verónica pausa dois segundos para organizar as ideias - Tanto quanto sabes, até pode ser um daqueles gajos que estão ali na mesa do canto - fazendo sinal com o olhar - Pode ser até o gajo da tua vida, aquele perfeito para ti, e tu não queres saber? Fogo... eu acho que ia investigar!
- Verónica... - Cátia rebola os olhos para a amiga - Se for o homem da minha vida e tiver de acontecer, acontece. Se não for, tenho outro desgosto para juntar ao molhe. Deixa lá que estou bem assim. Prefiro o conforto dos meus sonhos à realidade crua e dura - e remexe com a colher o café que já estava na mesa. Verónica recosta-se à cadeira e deixa o olhar passear pela esplanada do café:
- Olha, querida... - leva a chávena aos lábios, bebe um gole, e pousa - Agora falaste bem. Quando tiver de ser, é. Acho que vou adoptar o teu sistema.
Cátia olha de lado para a amiga e sorri, abraça-a e beija-a na bochecha:
- Mas isso não quer dizer que temos de parar de admirar homens jeitosos, pois não?
- Ai isso nunca! Nós duas juntas é o prato do dia! - e riem-se ambas com vontade, levadas depois às gargalhadas, deixando a restante clientela do café a olhá-las de espanto. Ainda a rir, Verónica volta a mirar o jeitoso da mesa do canto:
- Ai esta vida...


Não percas o próximo episódio...


15 de junho de 2013

Fast but not furious

Ah ah ah... - riu-se largamente o velho - Então? Já aprendeste ou queres levar mais?
O jovem levanta-se e corre em direção ao velho, salta de forma louca, estica a perna com intenção de acertar no peito do velho, mas apenas passa de raspão na sua túnica, e volta a ir ao chão com grande estrondo! O velho, depois de tantos desvios que fez ao jovem aprendiz cheio de força, decide terminar o treino por hoje e, sempre sorridente, diz-lhe:
- Rapaz... Tu tens muita vontade, mas há algo que tens a mais... A fúria! No dia em que te mantiveres sereno talvez possas vencer este pobre velho. Até lá, vai aprender a amar.
O jovem não compreendeu. Havia ainda de muito sofrer com a sua fúria, mas assim era o caminho. E o velho sabia-o. Apenas sofrendo o suficiente, poderia deixar o que estava a mais.

24 de maio de 2013

Finest hour

No episódio anterior: Diego é dispensado das suas funções. Apressa-se ao encontro da colega, no hospital, onde encontra a criança que havia salvo anteriormente. Jéssica está em estado de coma. Diego e o rapaz, que agora se sabe chamar-se Chico, ficam numa situação de alarme, pelas informações dadas por uma paciente acamada. Alguém mal intencionado pode estar a caminho da sala onde se encontram...


episódio 3º

   A porta parou a meio da abertura, o que fez Diego franzir as sobrancelhas. Estaria alguém indeciso acerca de entrar naquela sala? Mas um polícia de elite não se pode dar ao luxo de aguardar os movimentos do inimigo. "Se tem margem de manobra, deve agir!", aprendera na instrução avançada. Numa ação pensada em milésimos de segundo, Diego eleva o joelho em direção à porta, estica a perna e dá um forte empurrão nesta, que gira violentamente para o lado de fora da sala, levando consigo o que estava por trás. Diego lança-se ao corpo que foi projetado para o corredor, antes que se pudesse levantar, aplica-lhe pressão com os dedos da mão sobre um ponto vital no pescoço e nem lhe dá tempo de gemer:
   - Quem é você?! O que quer desta sala?
   O homem, do jeito vigorosamente preso que estava por Diego, nem conseguia responder. Os seus canais respiratórios, apertados pela mão do agente, não conseguiam emitir som, e a cor da sua pele começava a tornar-se vermelha, com as veias do rosto a incharem. O homem apenas conseguiu levantar o braço a esforço para agitar o cartão que tinha agarrado à lapela da farda, o que atraiu a visão de Diego, que observou o gesto, retirou de imediato a pressão sobre o pescoço do homem e levantou-se:
   - As minhas desculpas, senhor doutor! Pensei que fosse outra pessoa. Lamento.
   O médico, um pouco atordoado, levanta-se ajudado pela mão de Diego:
   - Outra pessoa?! Como quem, por exemplo? Um assassino assaltante de hospitais? Que raio de forma é essa de receber uma pessoa? Quem iria entrar aqui que necessitasse deste ataque que você me fez? - afaga com a mão a zona do pescoço atacada por Diego - Caramba, homem...
   - Lamento imenso, mas não podia arriscar. Segundo uma senhora que está ali acamada, sim, poderia ser um malfeitor.
   - Qual senhora? A dona Maria? Só podia ser... Meu amigo, essa senhora tem problemas para além de físicos. Ela pensa que todo o mundo pode atacar a qualquer instante... Não acredite em tudo o que ela diz...
   - Ai sim...? - Diego, perante esta informação, fica um tanto ou quanto envergonhado pelas suas ações - Pois... lamento de novo, doutor, não sabia, peço desculpa.
   - Você é colega de trabalho da Jéssica e veio cá vê-la, certo?
   - Exacto. Sou o Diego, e lá dentro está o Chico, um rapaz que veio comigo. Diga-me, doutor, quanto tempo vai a Jéssica permanecer em coma? Quando é que ela desperta? É muito grave?
   - Sabe... por mais que a medicina evolua, o funcionamento do cérebro humano permanecerá um mistério. A sua colega foi vítima de uma bala projetada contra o tórax, e atingiu o pulmão direito. Felizmente não atingiu o coração ou qualquer artéria mais importante. Foi uma hemorragia simples de estancar, e os seus tecidos estão em fase de recuperação. Nada supunha que a levasse a este estado, por isso lhe disse que o cérebro é um mistério. Diga-me, sabe se foi a primeira vez que ela sofreu o impacto de uma bala?
   - Tenho a certeza. Trabalha há anos comigo e nunca foi atingida. Foi a primeira vez, sim.
   - Terá sido então o susto, concerteza. Segundo os paramédicos da ambulância que foi ao vosso encontro, ela estava já neste estado. Decerto optou inconscientemente por "se desligar" - gesticulou com os dedos o símbolo das aspas - como defesa ao medo. O tempo que levará a despertar será da responsabilidade dela, agora.
   O médico deixou as palavras assentarem na mente de Diego e, sabendo nada mais poder adiantar:
   - Vou então deixá-lo que volte ao quarto, sim? O que vim aqui fazer já fiz, que era falar consigo, agora tenho outro compromisso noutra ala do hospital, com licença...
   Diego, pensativo, mas em nada pensando, regressa lentamente ao quarto:
   - Chico, podes sair daí debaixo, não há nenhum mau aqui. - volta a posicionar-se ao lado da cama de Jéssica, levanta a mão ao nível do rosto da colega deitada e acaricia o seu cabelo, enquanto murmura suavemente: - Jéssica, tu estás bem. Porque não despertas...?
   Chico, já de pé e ao lado de Diego, olha para este e sente compaixão e afecto sairem dos olhos do agente em direção à colega:
   - Você gosta dela, não gosta?
   Diego gira a cabeça na direção do rapaz:
   - Às vezes queria gostar mais do que posso demonstrar, sabes... Mas não posso misturar o meu trabalho com sentimentos... - vira-se para o rapaz e estica-lhe a mão, à espera da dele - Vamos, a Jéssica precisa descansar... - começaram a andar em direção à porta.
   - Fiquem... - volta a reiterar a idosa acamada, quando Diego e Chico passam por ela.
   - Minha senhora, aqui ninguém faz mal a ninguém. Descanse... - tenta Diego acalmá-la uma última vez.
   - Pobre menina... aí deitada... ela confiou em... mim, e eu vou falhar...
   Diego acha aquelas palavras da senhora tão reais, mas sabe serem problemas mentais, segundo informação do médico.
   - Às vezes não me importaria de estar noutra realidade, como esta senhora... - Diego desabafa a Chico, enquanto saiem pela porta - Agora voltemos a ti, miúdo. Que idade tens? Onde moras? - enquanto percorriam os corredores de volta à entrada principal do hospital.
   - Tenho nove anos... - A resposta à pergunta seguinte saiu a custo - Moro... por aí. - e silenciou-se.
   Diego sente o embaraço do rapaz, desacelera o passo, e dobra os joelhos, baixando-se ao nível dos olhos de Chico:
   - Não tens casa, é isso que estás a dizer? Onde estão os teus pais? A tua família?
   - ... não sei... Nunca tive família...
   - Chico, tu estás bem vestido e não estás sujo. Quem te põe assim?
   - Um lar de adopção de crianças. Mas eu não gosto. Vou lá de vez em quando, mas fujo.
   Diego fica boquiaberto. Instantes depois levanta-se e continua caminho em direção à saída do hospital, com a mão do miúdo agarrada à sua:
   - Vamos ver o que podemos fazer por ti, Chico. Tens de ter estabilidade. Eu tenho uns dias livres, ficas comigo entretanto. Assim a vaguear não terás um futuro decente. Onde é esse lar onde estás? Preciso de os informar.
   - É do outro lado da cidade. Ao pé do aeroporto.
  O sol encandeia-os na rua, dado o contraste com a luz serena do hospital de onde acabam de sair. Ainda assim, Diego consegue notar o olhar de um transeunte com cara de poucos amigos que por ele se cruza em direção oposta, hospital adentro. Por meio segundo, entreolham-se, e Diego sente algo que não sabe explicar, mas que foi um dos factores que o levou até tão longe no seu trabalho de agente especial. A expressão que viu no rosto do desconhecido alertara a sua mente preparada. Mas Diego sabia que andava nervoso, e podia não ser nada demais. A velha ao lado de Jéssica podia ter razão, mas o médico dissera que eram tudo ilusões. A mente de Diego encontra-se num cruzamento de suspeitas.
   - Raios! - queixa-se Diego, sabendo que a consciência não o deixaria tranquilo. Baixa-se ao nível do rapaz, aponta para um jardim e diz:
   - Chico, senta-te naquele banco de jardim e espera até eu voltar! - o rapaz nem teve tempo de responder, Diego solta a sua mão e volta acelerado para a entrada do hospital.
   Tudo poderá ser cansaço acumulado... Tudo poderá ser real... Mas Diego não concorda ser o destino a decidir. Ele próprio precisa agir, pese embora o facto de ter sido dispensado das suas funções. Mas há coisas mais valiosas que o seu estimado trabalho... Jéssica. Ela provocava batimentos fortes no seu coração, coisa que ele apenas começava a perceber agora...



Não percas o próximo episódio...

15 de maio de 2013

Finest hour

No episódio anterior: Agentes especiais Jéssica e Diego confrontam um criminoso que ameaça uma criança. Jéssica precipita-se e é baleada. Diego vinga a colega e dispara sobre o bandido, matando-o e libertando a criança. Diego desespera pela chegada de ajuda médica enquanto Jéssica perde as forças...


episódio 2º

   - ...e portanto, meus caros, é trabalho chato, mas imprescindível ser feito, o de preencher papelada interna, pois ajuda a manter-nos coesos em nossas ações. Muitos de nós já o sabemos por experiência própria, mas é sempre bom recordar. E agora vão às vossas vidas, que eu tenho mais que fazer.
   Terminava assim o chefe mais um discurso dirigido aos agentes presentes, veteranos e iniciados, enquanto ajeitava as folhas que usara como memorando para o que tinha dito. Olhou de relance para Diego, que estava sentado no canto do fundo da sala, e ainda o único presente. Já todos haviam saído, numa algazarra de conversas. O chefe aproxima-se de Diego:
   - O que é que apanhaste do que eu disse?
   Diego levanta os olhos em direção ao chefe, mas sem mover a cabeça, totalmente alheio ao discurso anterior. Levanta os ombros e faz um trejeito com os lábios, como quem diz não sei. O chefe não tem dúvidas:
   - Está decidido: vais uma semana de licença para onde quiseres. Aqui assim não me vales muito. Nem a ti próprio, bem sabes.
   - Como assim, chefe? Sabe que sou o mais dedicado e não falho uma chamada. Por não ter estado atento hoje, retira-me logo as funções?! Sabe bem que eu nem preciso sequer destas informações sobre escritos internos, faço-os a todos!
   - E tu sabes bem que não é esse o problema... e sabes bem que não estarás com os reflexos a cem por cento lá fora, numa qualquer situação de perigo. Estás muito entranhado no acontecido com a Jéssica. Precisas descansar. Vai, é uma ordem. E deixa a arma no armazém, não estás em condições de andar armado.
   Diego nunca havia perdido o controle às suas emoções, mas agora sabia que o chefe tinha razão.
   - Dois dias, chefe. É suficiente. Pode contar comigo.
   - O tempo que for preciso, Diego, não tenhas pressa. Relaxa-me esses neurónios...
   Uns breves momentos pensativo, Diego consente e sai. Deixa a arma com o responsável de armazém e sai em passo rápido para a rua, assobia com vigor a um táxi, que pára em sua frente, e entra para o banco de trás:
   - Hospital Central, rápido!
   Habituado às pressas de polícias, o taxista apenas responde "sim, senhor!" e mete prego a fundo. Dez minutos depois, quase do outro lado da cidade e após vários semáforos vermelhos passados:
   - Fique com o troco! - diz Diego enquanto abre a porta e sai em passo rápido para a entrada principal do hospital, sem sequer reparar que havia deixado uma nota de cinquenta para o valor de sete indicado no taxímetro. Entra hospital adentro, perscruta com o olhar de um lado ao outro, vê o balcão de informações à esquerda, dirige-se à senhora por detrás deste e, antes sequer de pousar as mãos no balcão, exclama:
   - Jéssica Sands!
   - Perdão, senhor?
   - A minha colega, veio para este hospital, com um ferimento de bala, Jéssica Sands! Onde está?
   - Ah, concerteza... Lamento senhor, mas a esta hora não podem entrar visitas. Mais trinta minutos. Pode esperar na salinha aqui ao lado...
   Diego mostra-se impaciente, mas decide acalmar. Afinal era só mais meia hora. Olha para o lado, vê duas largas portas abertas a dividir a sala de espera do local de entrada onde estava e dirige-se para lá. Vê algumas pessoas sentadas, encontra uma cadeira vaga e senta-se, não reparando em quem estava ao lado:
   - Senhor...
Diego vira a cabeça para o lado e vê uma criança, com os seus nove anos:
   - Obrigado...
Subitamente Diego reconhece a criança que salvou dos braços do criminoso dois dias antes:
   - Miúdo! Estás aqui...! Que fazes aqui? Porque não estás com a tua família? - foi uma rajada de perguntas agressivas, pensou Diego por momentos - Desculpa, antes de mais, como te chamas? Não cheguei a saber o teu nome.
   - Pode-me chamar Chico. É como os meus amigos me chamam. Vim cá ver a senhora polícia que, consigo, me salvou. Eu sabia que ela estava aqui. Estou à espera.
   - Ok, Chico. Eu sou o Diego. - apertou-lhe a mão com um sorriso sincero - Então vamos os dois, eu também vim ver a Jéssica. - Diego põe a mão sobre o ombro do rapaz e sorri carinhosamente - É o nome dela, sabes? Acho que vai gostar de te ver. Estás aqui há muito tempo?
   Chico não teve tempo de responder. Uma voz vinda dos altifalantes anunciava a hora das visitas poderem entrar nos quartos dos respectivos visitados. Diego levanta-se e pega na mão de Chico:
   - Anda, depois acabamos a nossa conversa. Vamos ver como está a Jéssica.
   Uns corredores e curvas depois avistam o quarto de cuidados intensivos onde estaria Jéssica, segundo a senhora do balcão de  informações, à qual Diego perguntou quando lá passou de novo ao sair da sala de espera com Chico. Mas a escassos metros da porta ambos se assustam com o abrir repentino desta. Uma enfermeira acaba de sair lá de dentro e, vendo que Diego e Chico para lá se dirigem, informa-os:
   - Vêm de visita? Peço-vos que não façam barulho. A menina Jéssica ainda se encontra em estado inconsciente e com diagnóstico reservado. - vira-se para Diego - Se quiser chamo o doutor para vir falar consigo...
   - Agradecia que o fizesse, então. Obrigado.
   A enfermeira prossegue caminho na direção por onde Diego e Chico vinham, enquanto estes se entreolham, como que para darem força um ao outro antes da entrada no quarto da colega e amiga. Diego inspira fundo, pega na mão de Chico, viram-se ambos para a porta, e empurram-na. A primeira vista que têm é de uma senhora idosa na cama, ligada a soro. Jéssica encontrava-se deitada na cama seguinte, paralela a esta. Cumprimentaram com um "boa tarde" a senhora idosa, que se encontrava acordada e que igualmente respondeu, contornaram-na, e chegaram-se à cama de Jéssica. Estava com um ar calmo e tranquilo, como se de apenas um leve sono se tratasse. Contemplaram o seu rosto durante uns segundos em silêncio, quebrado logo após pela lenta e fraca voz da senhora deitada ao lado:
   - Não a... deixem...
Ambos Diego e Chico viram a cabeça para trás, com uma expressão inquisidora. Pergunta Diego:
   - Como, minha senhora?!
   - Não a deixem... ele pode... voltar....
   - Quem pode voltar? De que fala a senhora? Você está bem?
   - Eu... não interesso... a menina que está aí contou-me... coisas... e alguém veio... cá. Com más intenções... Fiquem... não vão.
   Diego, com a sua experiência em psicologia criminosa, começa a ver um padrão coerente no que a senhora relata, e tenta ajudá-la a dar-lhe mais indícios:
   - Calma, senhora. Eu estou aqui, ninguém vai fazer mal a ninguém. Agora, conte-me devagar, a seu tempo... Você disse que a Jéssica lhe falou? Quer dizer que ela esteve consciente?
   - A menina despertou... uns minutos, sim. Durante esta noite... que passou. Mas não tinha forças. Pediu-me um favor antes de... um homem ruim entrar... aqui. Eu não sei... quando ele voltará... fiquem... receio que...
   Antes que a senhora terminasse a frase, Diego começa a ouvir de longe uns passos pelo corredor que se aproximavam do quarto onde se encontravam. A sua mente preparada para o perigo calcula todos as ações possíveis e questiona rapidamente a senhora:
   - Você tem a certeza do que está a dizer?
   Os passos chegavam cada vez mais perto...
   - Sim... proteja essa menina...
   - Chico, vai p'ra baixo da cama já! Fica aí e não saias! - vira-se para a senhora - A senhora feche os olhos e finja-se de adormecida! - dizendo isto, salta ele próprio até à porta, encosta-se à parede, e tenta acalmar a respiração, que o denunciaria caso não a conseguisse controlar. Mas não estava a ser fácil. Se o que a senhora dissera fosse verdade, poderia muito bem ser alguém mal intencionado que se estava dirigindo ao quarto. E Diego estava fora de licença, e sem arma. É certo que tinha muito preparação corpo a corpo, mas neste momento reparara na falta que a arma lhe fazia, tornava-o menos confiante.
   Ainda com a respiração ofegante, fecha os punhos, olha de soslaio para debaixo da cama de Jéssica, onde está Chico, que lhe sorri a medo, volta a olhar para a porta, e prapara-se para a inevitável abertura desta, a escassos segundos de acontecer...
   Os passos ouvem-se mais lentos...
   Diego franze as sobrancelhas, aperta mais firmemente os punhos...
   A porta começa a abrir-se devagar...



Não percas o próximo episódio...

1 de maio de 2013

Finest hour


episódio 1º

   - Em baixo, já! Não volto a repetir!
   Mas o criminoso não dava o braço a torcer, mantendo a arma apontada ao refém. A agente especial Jéssica começava a dar indícios de nervosismo, começando a escorrer uma gota de suor pelo lado esquerdo do seu rosto, nunca desviando a mira do bandido. Diego fica preocupado ao sentir nervosismo na colega:
   - Que estás a fazer, Jéssica? Mantém-te no protocolo! Ele vai ceder, sabes disso! Não ponhas a operação em risco!
   A distância de 15 metros entre os agentes e o bandido era suficiente para Diego falar com a colega, tentando incutir-lhe calma, sem que o criminoso ouvisse:
   - Escuta, o reforço vem a caminho. Conseguimos sem problemas aguentar este tipo, ou mesmo forçá-lo a desistir. Não te ponhas com ideias. Sabes que isso não vai ficar bem no teu relatório!
   Mas algo mais profundo afectava Jéssica, que começava a tornar a sua respiração ofegante e a tremer os lábios como que a impedir um choro:
   - Aquela criança não tem culpa nenhuma... Não posso deixar que ele leve a melhor. E protocolos não se preocupam com isso.
   - Que estás a dizer, Jéssica?! Estás a ficar fora de ti. Por favor, estabiliza-te. Eu não posso fazer isto sozinho! Se ignorares o protocolo é que isto dá para o torto! Somos dois, ele é um, não vai ter coragem de disparar...
   - Mas a cada segundo que passa, aquele menino sofre mais... Não posso deixar isso. Perdoa-me, Diego... tenho de agir!
   - NÃO!!!!! - Diego, sobressaltado, vê a colega levantar os braços, deixar cair a arma, e dirigir-se lentamente em direcção ao bandido. - Jéssica pára! Volta para trás, estás a descoberto, queres morrer?! Não faças isso!
   Tarde demais. Como que em câmera lenta, Jéssica vê o mundo em volta enevoar-se, o chão a aproximar-se da sua vista, e o corpo a perder sensibilidade. Diego, perdendo o norte à calma, vendo a colega cair, não hesita e dispara todas as balas dentro da sua pistola em menos de três segundos contra o inimigo, numa raiva desenfreada.
   A névoa dos disparos paira durante breves segundos... Com o silêncio posterior, deixando a calma voltar ao seu cérebro, Diego repara que a criança se encontra livre dos braços do bandido, estando este caído numa poça de sangue. Acertara em cheio, como que por milagre, não ferindo a criança.
   - Jéssica...? - questiona Diego ao chegar perto da colega, desviando-lhe o cabelo dos olhos, que assim ficou, quando caiu ao chão. Jéssica murmura com dificuldade:
   - A criança... está bem?...
   - Está, não te preocupes. Aguenta um pouco e não gastes a tua energia a falar. A ambulância deve estar a chegar com os reforços.
   - Desculpa, não consegui evitar... Vi-me naquela situação...
   - O quê...? Qual situação? Não conseguiste evitar o quê?
   - Ver a  criança aterrorizada nos braços daquele desgraçado... Aconteceu-me em miúda... Pensava que já tinha superado, mas hoje voltou tudo ao de cima... desculpa...
   Diego começa a perceber porque Jéssica costumava abrandar o seu pensamento perante imagens de crianças sob ataque nas reuniões da sua equipa, e lamenta-se ele próprio de não ter percebido antes.
   - Não faz mal, Jéssica. Ninguém é de ferro. Todos temos fraquezas. Agora por favor aguenta um pouco, está quase aí a ajuda.
Sirenes começaram a ouvir-se ao longe, o que não aliviou o stress de Diego:
   - Raios, porque demoram tanto!? - disse entre dentes, virando a cabeça para o lado, para que Jéssica não ouvisse.
   - Espero que continues um bom polícia, Diego. Sempre admirei o teu trabalho. Faz isso por mim...
   - Que estás a dizer? Não o conseguiria sem ti! Aguenta por favor, Jéssica, não te deixes ir!!...
   As sirenes aproximavam-se, e as pálpebras de Jéssica desciam...



Não percas o próximo episódio...





10 de abril de 2013

Problemas na fronteira

Sete da manhã. Frio... calor... não me lembro. Ainda estava a acordar de um sono pouco tranquilo por causa dos cães do vizinho a ladrar a noite toda! Se eu tivesse uma caçadeira tratava do assunto, mas a polícia só me dá licença para transportar uma bisnaga. Levantei-me então lentamente enquanto dava início ao funcionamento do meu cérebro, preparando-o para o dia que tinha pela frente, quando abruptamente o despertador toca, alto e estridente. Detesto quando isto acontece. Mas esta seria a última vez. Peguei nele e atirei-o em direcção à janela com toda a força! Esqueci-me foi que estava fechada… Ou seja, o despertador desfez-se aos bocados. A janela nem arranhada ficou. Mas como tinha mais que fazer, deixei o quarto em direcção à cozinha e estrelei um ovo, e deixei-o cair no chão. Como não tinha paciência para fazer outro, liguei para uma agência de seguros e falei com a Marta, que me passou à Teresa para tratar de assuntos relacionados com o segredo de estado.

Saí então de casa mais confiante que nunca e esperei pacientemente por um táxi na paragem do autocarro. Passados vinte minutos chega um. Estava ocupado. Não me podia permitir esperar muito mais tempo. Pensava eu agora em apanhar o metro, quando começa a chuviscar. Tinha de ser rápido a correr até lá para não molhar o chapéu-de-chuva novo que comprara um dia antes. Protegi-o com o casaco enrolado à volta, juntamente com a camisa e as calças. Mas fui calçado. Os pés eu não molhava de certeza!

Chegado à estação, entrei então no metro, vesti-me e perguntei as horas a uma senhora que estava encostada a outra senhora, que estava encostada a um senhor e mais outros tantos. Percebi que aquele vagão estava apinhado de gente. Não me disse as horas, apenas me disse que não era cedo. Assenti com pesar e falei turco durante a viagem toda, para distrair. Finalmente na última estação, saí do metro e dirigi-me apressadamente para a limousine que me esperava lá fora. Sentei-me, fechei a porta e disse ao "chauffeur" que me apetecia tomar algo, ao que ele respondeu que tomou a liberdade de pensar nisso, ligou a ignição e acelerou a fundo. Já numa velocidade de cruzeiro, insisti:
"Apetecia-me tomar algo." Ao que ele reafirmou: "Já lhe disse que tomei a liberdade de pensar nisso." Deixei-o em paz, não fosse ele chatear-se e fazer uma má condução. Daí a pouco travou bruscamente, virou-se para trás e disse-me que havíamos chegado. Abri a porta e saí, reparei que estávamos na fronteira, olhei para o chão e encontrei os problemas. Eram na sua maioria de somar e subtrair, assentes numa folha A4 quadriculada.

Moral da história: mesmo que o desfecho seja ridículo e incerto, aprendeste algo pelo caminho. Faz o que tens a fazer.