24 de maio de 2013

Finest hour

No episódio anterior: Diego é dispensado das suas funções. Apressa-se ao encontro da colega, no hospital, onde encontra a criança que havia salvo anteriormente. Jéssica está em estado de coma. Diego e o rapaz, que agora se sabe chamar-se Chico, ficam numa situação de alarme, pelas informações dadas por uma paciente acamada. Alguém mal intencionado pode estar a caminho da sala onde se encontram...


episódio 3º

   A porta parou a meio da abertura, o que fez Diego franzir as sobrancelhas. Estaria alguém indeciso acerca de entrar naquela sala? Mas um polícia de elite não se pode dar ao luxo de aguardar os movimentos do inimigo. "Se tem margem de manobra, deve agir!", aprendera na instrução avançada. Numa ação pensada em milésimos de segundo, Diego eleva o joelho em direção à porta, estica a perna e dá um forte empurrão nesta, que gira violentamente para o lado de fora da sala, levando consigo o que estava por trás. Diego lança-se ao corpo que foi projetado para o corredor, antes que se pudesse levantar, aplica-lhe pressão com os dedos da mão sobre um ponto vital no pescoço e nem lhe dá tempo de gemer:
   - Quem é você?! O que quer desta sala?
   O homem, do jeito vigorosamente preso que estava por Diego, nem conseguia responder. Os seus canais respiratórios, apertados pela mão do agente, não conseguiam emitir som, e a cor da sua pele começava a tornar-se vermelha, com as veias do rosto a incharem. O homem apenas conseguiu levantar o braço a esforço para agitar o cartão que tinha agarrado à lapela da farda, o que atraiu a visão de Diego, que observou o gesto, retirou de imediato a pressão sobre o pescoço do homem e levantou-se:
   - As minhas desculpas, senhor doutor! Pensei que fosse outra pessoa. Lamento.
   O médico, um pouco atordoado, levanta-se ajudado pela mão de Diego:
   - Outra pessoa?! Como quem, por exemplo? Um assassino assaltante de hospitais? Que raio de forma é essa de receber uma pessoa? Quem iria entrar aqui que necessitasse deste ataque que você me fez? - afaga com a mão a zona do pescoço atacada por Diego - Caramba, homem...
   - Lamento imenso, mas não podia arriscar. Segundo uma senhora que está ali acamada, sim, poderia ser um malfeitor.
   - Qual senhora? A dona Maria? Só podia ser... Meu amigo, essa senhora tem problemas para além de físicos. Ela pensa que todo o mundo pode atacar a qualquer instante... Não acredite em tudo o que ela diz...
   - Ai sim...? - Diego, perante esta informação, fica um tanto ou quanto envergonhado pelas suas ações - Pois... lamento de novo, doutor, não sabia, peço desculpa.
   - Você é colega de trabalho da Jéssica e veio cá vê-la, certo?
   - Exacto. Sou o Diego, e lá dentro está o Chico, um rapaz que veio comigo. Diga-me, doutor, quanto tempo vai a Jéssica permanecer em coma? Quando é que ela desperta? É muito grave?
   - Sabe... por mais que a medicina evolua, o funcionamento do cérebro humano permanecerá um mistério. A sua colega foi vítima de uma bala projetada contra o tórax, e atingiu o pulmão direito. Felizmente não atingiu o coração ou qualquer artéria mais importante. Foi uma hemorragia simples de estancar, e os seus tecidos estão em fase de recuperação. Nada supunha que a levasse a este estado, por isso lhe disse que o cérebro é um mistério. Diga-me, sabe se foi a primeira vez que ela sofreu o impacto de uma bala?
   - Tenho a certeza. Trabalha há anos comigo e nunca foi atingida. Foi a primeira vez, sim.
   - Terá sido então o susto, concerteza. Segundo os paramédicos da ambulância que foi ao vosso encontro, ela estava já neste estado. Decerto optou inconscientemente por "se desligar" - gesticulou com os dedos o símbolo das aspas - como defesa ao medo. O tempo que levará a despertar será da responsabilidade dela, agora.
   O médico deixou as palavras assentarem na mente de Diego e, sabendo nada mais poder adiantar:
   - Vou então deixá-lo que volte ao quarto, sim? O que vim aqui fazer já fiz, que era falar consigo, agora tenho outro compromisso noutra ala do hospital, com licença...
   Diego, pensativo, mas em nada pensando, regressa lentamente ao quarto:
   - Chico, podes sair daí debaixo, não há nenhum mau aqui. - volta a posicionar-se ao lado da cama de Jéssica, levanta a mão ao nível do rosto da colega deitada e acaricia o seu cabelo, enquanto murmura suavemente: - Jéssica, tu estás bem. Porque não despertas...?
   Chico, já de pé e ao lado de Diego, olha para este e sente compaixão e afecto sairem dos olhos do agente em direção à colega:
   - Você gosta dela, não gosta?
   Diego gira a cabeça na direção do rapaz:
   - Às vezes queria gostar mais do que posso demonstrar, sabes... Mas não posso misturar o meu trabalho com sentimentos... - vira-se para o rapaz e estica-lhe a mão, à espera da dele - Vamos, a Jéssica precisa descansar... - começaram a andar em direção à porta.
   - Fiquem... - volta a reiterar a idosa acamada, quando Diego e Chico passam por ela.
   - Minha senhora, aqui ninguém faz mal a ninguém. Descanse... - tenta Diego acalmá-la uma última vez.
   - Pobre menina... aí deitada... ela confiou em... mim, e eu vou falhar...
   Diego acha aquelas palavras da senhora tão reais, mas sabe serem problemas mentais, segundo informação do médico.
   - Às vezes não me importaria de estar noutra realidade, como esta senhora... - Diego desabafa a Chico, enquanto saiem pela porta - Agora voltemos a ti, miúdo. Que idade tens? Onde moras? - enquanto percorriam os corredores de volta à entrada principal do hospital.
   - Tenho nove anos... - A resposta à pergunta seguinte saiu a custo - Moro... por aí. - e silenciou-se.
   Diego sente o embaraço do rapaz, desacelera o passo, e dobra os joelhos, baixando-se ao nível dos olhos de Chico:
   - Não tens casa, é isso que estás a dizer? Onde estão os teus pais? A tua família?
   - ... não sei... Nunca tive família...
   - Chico, tu estás bem vestido e não estás sujo. Quem te põe assim?
   - Um lar de adopção de crianças. Mas eu não gosto. Vou lá de vez em quando, mas fujo.
   Diego fica boquiaberto. Instantes depois levanta-se e continua caminho em direção à saída do hospital, com a mão do miúdo agarrada à sua:
   - Vamos ver o que podemos fazer por ti, Chico. Tens de ter estabilidade. Eu tenho uns dias livres, ficas comigo entretanto. Assim a vaguear não terás um futuro decente. Onde é esse lar onde estás? Preciso de os informar.
   - É do outro lado da cidade. Ao pé do aeroporto.
  O sol encandeia-os na rua, dado o contraste com a luz serena do hospital de onde acabam de sair. Ainda assim, Diego consegue notar o olhar de um transeunte com cara de poucos amigos que por ele se cruza em direção oposta, hospital adentro. Por meio segundo, entreolham-se, e Diego sente algo que não sabe explicar, mas que foi um dos factores que o levou até tão longe no seu trabalho de agente especial. A expressão que viu no rosto do desconhecido alertara a sua mente preparada. Mas Diego sabia que andava nervoso, e podia não ser nada demais. A velha ao lado de Jéssica podia ter razão, mas o médico dissera que eram tudo ilusões. A mente de Diego encontra-se num cruzamento de suspeitas.
   - Raios! - queixa-se Diego, sabendo que a consciência não o deixaria tranquilo. Baixa-se ao nível do rapaz, aponta para um jardim e diz:
   - Chico, senta-te naquele banco de jardim e espera até eu voltar! - o rapaz nem teve tempo de responder, Diego solta a sua mão e volta acelerado para a entrada do hospital.
   Tudo poderá ser cansaço acumulado... Tudo poderá ser real... Mas Diego não concorda ser o destino a decidir. Ele próprio precisa agir, pese embora o facto de ter sido dispensado das suas funções. Mas há coisas mais valiosas que o seu estimado trabalho... Jéssica. Ela provocava batimentos fortes no seu coração, coisa que ele apenas começava a perceber agora...



Não percas o próximo episódio...

15 de maio de 2013

Finest hour

No episódio anterior: Agentes especiais Jéssica e Diego confrontam um criminoso que ameaça uma criança. Jéssica precipita-se e é baleada. Diego vinga a colega e dispara sobre o bandido, matando-o e libertando a criança. Diego desespera pela chegada de ajuda médica enquanto Jéssica perde as forças...


episódio 2º

   - ...e portanto, meus caros, é trabalho chato, mas imprescindível ser feito, o de preencher papelada interna, pois ajuda a manter-nos coesos em nossas ações. Muitos de nós já o sabemos por experiência própria, mas é sempre bom recordar. E agora vão às vossas vidas, que eu tenho mais que fazer.
   Terminava assim o chefe mais um discurso dirigido aos agentes presentes, veteranos e iniciados, enquanto ajeitava as folhas que usara como memorando para o que tinha dito. Olhou de relance para Diego, que estava sentado no canto do fundo da sala, e ainda o único presente. Já todos haviam saído, numa algazarra de conversas. O chefe aproxima-se de Diego:
   - O que é que apanhaste do que eu disse?
   Diego levanta os olhos em direção ao chefe, mas sem mover a cabeça, totalmente alheio ao discurso anterior. Levanta os ombros e faz um trejeito com os lábios, como quem diz não sei. O chefe não tem dúvidas:
   - Está decidido: vais uma semana de licença para onde quiseres. Aqui assim não me vales muito. Nem a ti próprio, bem sabes.
   - Como assim, chefe? Sabe que sou o mais dedicado e não falho uma chamada. Por não ter estado atento hoje, retira-me logo as funções?! Sabe bem que eu nem preciso sequer destas informações sobre escritos internos, faço-os a todos!
   - E tu sabes bem que não é esse o problema... e sabes bem que não estarás com os reflexos a cem por cento lá fora, numa qualquer situação de perigo. Estás muito entranhado no acontecido com a Jéssica. Precisas descansar. Vai, é uma ordem. E deixa a arma no armazém, não estás em condições de andar armado.
   Diego nunca havia perdido o controle às suas emoções, mas agora sabia que o chefe tinha razão.
   - Dois dias, chefe. É suficiente. Pode contar comigo.
   - O tempo que for preciso, Diego, não tenhas pressa. Relaxa-me esses neurónios...
   Uns breves momentos pensativo, Diego consente e sai. Deixa a arma com o responsável de armazém e sai em passo rápido para a rua, assobia com vigor a um táxi, que pára em sua frente, e entra para o banco de trás:
   - Hospital Central, rápido!
   Habituado às pressas de polícias, o taxista apenas responde "sim, senhor!" e mete prego a fundo. Dez minutos depois, quase do outro lado da cidade e após vários semáforos vermelhos passados:
   - Fique com o troco! - diz Diego enquanto abre a porta e sai em passo rápido para a entrada principal do hospital, sem sequer reparar que havia deixado uma nota de cinquenta para o valor de sete indicado no taxímetro. Entra hospital adentro, perscruta com o olhar de um lado ao outro, vê o balcão de informações à esquerda, dirige-se à senhora por detrás deste e, antes sequer de pousar as mãos no balcão, exclama:
   - Jéssica Sands!
   - Perdão, senhor?
   - A minha colega, veio para este hospital, com um ferimento de bala, Jéssica Sands! Onde está?
   - Ah, concerteza... Lamento senhor, mas a esta hora não podem entrar visitas. Mais trinta minutos. Pode esperar na salinha aqui ao lado...
   Diego mostra-se impaciente, mas decide acalmar. Afinal era só mais meia hora. Olha para o lado, vê duas largas portas abertas a dividir a sala de espera do local de entrada onde estava e dirige-se para lá. Vê algumas pessoas sentadas, encontra uma cadeira vaga e senta-se, não reparando em quem estava ao lado:
   - Senhor...
Diego vira a cabeça para o lado e vê uma criança, com os seus nove anos:
   - Obrigado...
Subitamente Diego reconhece a criança que salvou dos braços do criminoso dois dias antes:
   - Miúdo! Estás aqui...! Que fazes aqui? Porque não estás com a tua família? - foi uma rajada de perguntas agressivas, pensou Diego por momentos - Desculpa, antes de mais, como te chamas? Não cheguei a saber o teu nome.
   - Pode-me chamar Chico. É como os meus amigos me chamam. Vim cá ver a senhora polícia que, consigo, me salvou. Eu sabia que ela estava aqui. Estou à espera.
   - Ok, Chico. Eu sou o Diego. - apertou-lhe a mão com um sorriso sincero - Então vamos os dois, eu também vim ver a Jéssica. - Diego põe a mão sobre o ombro do rapaz e sorri carinhosamente - É o nome dela, sabes? Acho que vai gostar de te ver. Estás aqui há muito tempo?
   Chico não teve tempo de responder. Uma voz vinda dos altifalantes anunciava a hora das visitas poderem entrar nos quartos dos respectivos visitados. Diego levanta-se e pega na mão de Chico:
   - Anda, depois acabamos a nossa conversa. Vamos ver como está a Jéssica.
   Uns corredores e curvas depois avistam o quarto de cuidados intensivos onde estaria Jéssica, segundo a senhora do balcão de  informações, à qual Diego perguntou quando lá passou de novo ao sair da sala de espera com Chico. Mas a escassos metros da porta ambos se assustam com o abrir repentino desta. Uma enfermeira acaba de sair lá de dentro e, vendo que Diego e Chico para lá se dirigem, informa-os:
   - Vêm de visita? Peço-vos que não façam barulho. A menina Jéssica ainda se encontra em estado inconsciente e com diagnóstico reservado. - vira-se para Diego - Se quiser chamo o doutor para vir falar consigo...
   - Agradecia que o fizesse, então. Obrigado.
   A enfermeira prossegue caminho na direção por onde Diego e Chico vinham, enquanto estes se entreolham, como que para darem força um ao outro antes da entrada no quarto da colega e amiga. Diego inspira fundo, pega na mão de Chico, viram-se ambos para a porta, e empurram-na. A primeira vista que têm é de uma senhora idosa na cama, ligada a soro. Jéssica encontrava-se deitada na cama seguinte, paralela a esta. Cumprimentaram com um "boa tarde" a senhora idosa, que se encontrava acordada e que igualmente respondeu, contornaram-na, e chegaram-se à cama de Jéssica. Estava com um ar calmo e tranquilo, como se de apenas um leve sono se tratasse. Contemplaram o seu rosto durante uns segundos em silêncio, quebrado logo após pela lenta e fraca voz da senhora deitada ao lado:
   - Não a... deixem...
Ambos Diego e Chico viram a cabeça para trás, com uma expressão inquisidora. Pergunta Diego:
   - Como, minha senhora?!
   - Não a deixem... ele pode... voltar....
   - Quem pode voltar? De que fala a senhora? Você está bem?
   - Eu... não interesso... a menina que está aí contou-me... coisas... e alguém veio... cá. Com más intenções... Fiquem... não vão.
   Diego, com a sua experiência em psicologia criminosa, começa a ver um padrão coerente no que a senhora relata, e tenta ajudá-la a dar-lhe mais indícios:
   - Calma, senhora. Eu estou aqui, ninguém vai fazer mal a ninguém. Agora, conte-me devagar, a seu tempo... Você disse que a Jéssica lhe falou? Quer dizer que ela esteve consciente?
   - A menina despertou... uns minutos, sim. Durante esta noite... que passou. Mas não tinha forças. Pediu-me um favor antes de... um homem ruim entrar... aqui. Eu não sei... quando ele voltará... fiquem... receio que...
   Antes que a senhora terminasse a frase, Diego começa a ouvir de longe uns passos pelo corredor que se aproximavam do quarto onde se encontravam. A sua mente preparada para o perigo calcula todos as ações possíveis e questiona rapidamente a senhora:
   - Você tem a certeza do que está a dizer?
   Os passos chegavam cada vez mais perto...
   - Sim... proteja essa menina...
   - Chico, vai p'ra baixo da cama já! Fica aí e não saias! - vira-se para a senhora - A senhora feche os olhos e finja-se de adormecida! - dizendo isto, salta ele próprio até à porta, encosta-se à parede, e tenta acalmar a respiração, que o denunciaria caso não a conseguisse controlar. Mas não estava a ser fácil. Se o que a senhora dissera fosse verdade, poderia muito bem ser alguém mal intencionado que se estava dirigindo ao quarto. E Diego estava fora de licença, e sem arma. É certo que tinha muito preparação corpo a corpo, mas neste momento reparara na falta que a arma lhe fazia, tornava-o menos confiante.
   Ainda com a respiração ofegante, fecha os punhos, olha de soslaio para debaixo da cama de Jéssica, onde está Chico, que lhe sorri a medo, volta a olhar para a porta, e prapara-se para a inevitável abertura desta, a escassos segundos de acontecer...
   Os passos ouvem-se mais lentos...
   Diego franze as sobrancelhas, aperta mais firmemente os punhos...
   A porta começa a abrir-se devagar...



Não percas o próximo episódio...

1 de maio de 2013

Finest hour


episódio 1º

   - Em baixo, já! Não volto a repetir!
   Mas o criminoso não dava o braço a torcer, mantendo a arma apontada ao refém. A agente especial Jéssica começava a dar indícios de nervosismo, começando a escorrer uma gota de suor pelo lado esquerdo do seu rosto, nunca desviando a mira do bandido. Diego fica preocupado ao sentir nervosismo na colega:
   - Que estás a fazer, Jéssica? Mantém-te no protocolo! Ele vai ceder, sabes disso! Não ponhas a operação em risco!
   A distância de 15 metros entre os agentes e o bandido era suficiente para Diego falar com a colega, tentando incutir-lhe calma, sem que o criminoso ouvisse:
   - Escuta, o reforço vem a caminho. Conseguimos sem problemas aguentar este tipo, ou mesmo forçá-lo a desistir. Não te ponhas com ideias. Sabes que isso não vai ficar bem no teu relatório!
   Mas algo mais profundo afectava Jéssica, que começava a tornar a sua respiração ofegante e a tremer os lábios como que a impedir um choro:
   - Aquela criança não tem culpa nenhuma... Não posso deixar que ele leve a melhor. E protocolos não se preocupam com isso.
   - Que estás a dizer, Jéssica?! Estás a ficar fora de ti. Por favor, estabiliza-te. Eu não posso fazer isto sozinho! Se ignorares o protocolo é que isto dá para o torto! Somos dois, ele é um, não vai ter coragem de disparar...
   - Mas a cada segundo que passa, aquele menino sofre mais... Não posso deixar isso. Perdoa-me, Diego... tenho de agir!
   - NÃO!!!!! - Diego, sobressaltado, vê a colega levantar os braços, deixar cair a arma, e dirigir-se lentamente em direcção ao bandido. - Jéssica pára! Volta para trás, estás a descoberto, queres morrer?! Não faças isso!
   Tarde demais. Como que em câmera lenta, Jéssica vê o mundo em volta enevoar-se, o chão a aproximar-se da sua vista, e o corpo a perder sensibilidade. Diego, perdendo o norte à calma, vendo a colega cair, não hesita e dispara todas as balas dentro da sua pistola em menos de três segundos contra o inimigo, numa raiva desenfreada.
   A névoa dos disparos paira durante breves segundos... Com o silêncio posterior, deixando a calma voltar ao seu cérebro, Diego repara que a criança se encontra livre dos braços do bandido, estando este caído numa poça de sangue. Acertara em cheio, como que por milagre, não ferindo a criança.
   - Jéssica...? - questiona Diego ao chegar perto da colega, desviando-lhe o cabelo dos olhos, que assim ficou, quando caiu ao chão. Jéssica murmura com dificuldade:
   - A criança... está bem?...
   - Está, não te preocupes. Aguenta um pouco e não gastes a tua energia a falar. A ambulância deve estar a chegar com os reforços.
   - Desculpa, não consegui evitar... Vi-me naquela situação...
   - O quê...? Qual situação? Não conseguiste evitar o quê?
   - Ver a  criança aterrorizada nos braços daquele desgraçado... Aconteceu-me em miúda... Pensava que já tinha superado, mas hoje voltou tudo ao de cima... desculpa...
   Diego começa a perceber porque Jéssica costumava abrandar o seu pensamento perante imagens de crianças sob ataque nas reuniões da sua equipa, e lamenta-se ele próprio de não ter percebido antes.
   - Não faz mal, Jéssica. Ninguém é de ferro. Todos temos fraquezas. Agora por favor aguenta um pouco, está quase aí a ajuda.
Sirenes começaram a ouvir-se ao longe, o que não aliviou o stress de Diego:
   - Raios, porque demoram tanto!? - disse entre dentes, virando a cabeça para o lado, para que Jéssica não ouvisse.
   - Espero que continues um bom polícia, Diego. Sempre admirei o teu trabalho. Faz isso por mim...
   - Que estás a dizer? Não o conseguiria sem ti! Aguenta por favor, Jéssica, não te deixes ir!!...
   As sirenes aproximavam-se, e as pálpebras de Jéssica desciam...



Não percas o próximo episódio...





10 de abril de 2013

Problemas na fronteira

Sete da manhã. Frio... calor... não me lembro. Ainda estava a acordar de um sono pouco tranquilo por causa dos cães do vizinho a ladrar a noite toda! Se eu tivesse uma caçadeira tratava do assunto, mas a polícia só me dá licença para transportar uma bisnaga. Levantei-me então lentamente enquanto dava início ao funcionamento do meu cérebro, preparando-o para o dia que tinha pela frente, quando abruptamente o despertador toca, alto e estridente. Detesto quando isto acontece. Mas esta seria a última vez. Peguei nele e atirei-o em direcção à janela com toda a força! Esqueci-me foi que estava fechada… Ou seja, o despertador desfez-se aos bocados. A janela nem arranhada ficou. Mas como tinha mais que fazer, deixei o quarto em direcção à cozinha e estrelei um ovo, e deixei-o cair no chão. Como não tinha paciência para fazer outro, liguei para uma agência de seguros e falei com a Marta, que me passou à Teresa para tratar de assuntos relacionados com o segredo de estado.

Saí então de casa mais confiante que nunca e esperei pacientemente por um táxi na paragem do autocarro. Passados vinte minutos chega um. Estava ocupado. Não me podia permitir esperar muito mais tempo. Pensava eu agora em apanhar o metro, quando começa a chuviscar. Tinha de ser rápido a correr até lá para não molhar o chapéu-de-chuva novo que comprara um dia antes. Protegi-o com o casaco enrolado à volta, juntamente com a camisa e as calças. Mas fui calçado. Os pés eu não molhava de certeza!

Chegado à estação, entrei então no metro, vesti-me e perguntei as horas a uma senhora que estava encostada a outra senhora, que estava encostada a um senhor e mais outros tantos. Percebi que aquele vagão estava apinhado de gente. Não me disse as horas, apenas me disse que não era cedo. Assenti com pesar e falei turco durante a viagem toda, para distrair. Finalmente na última estação, saí do metro e dirigi-me apressadamente para a limousine que me esperava lá fora. Sentei-me, fechei a porta e disse ao "chauffeur" que me apetecia tomar algo, ao que ele respondeu que tomou a liberdade de pensar nisso, ligou a ignição e acelerou a fundo. Já numa velocidade de cruzeiro, insisti:
"Apetecia-me tomar algo." Ao que ele reafirmou: "Já lhe disse que tomei a liberdade de pensar nisso." Deixei-o em paz, não fosse ele chatear-se e fazer uma má condução. Daí a pouco travou bruscamente, virou-se para trás e disse-me que havíamos chegado. Abri a porta e saí, reparei que estávamos na fronteira, olhei para o chão e encontrei os problemas. Eram na sua maioria de somar e subtrair, assentes numa folha A4 quadriculada.

Moral da história: mesmo que o desfecho seja ridículo e incerto, aprendeste algo pelo caminho. Faz o que tens a fazer.

7 de abril de 2013

O amor e uma caneca

Este é um texto baseado na sugestão da Knight, que me deu o título e de quem espero a respectiva crítica após a sua leitura. Obrigado Knight pela sugestão.

"Joana, já leváste as bebidas prá mesa?", perguntou a anfitriã da festa. "Já, tonta, sabes que sim, porque estás a perguntar? Querias emborcar mais um cadinho, era? Tem mas é calma, fofinha, senão quando o pessoal começar a chegar já tu tás podre!", responde-lhe Joana enquanto passa para a sala para pousar os pratos na mesa. Ainda da cozinha, Magda eleva a voz: "Ó parva, e não é esse o objectivo? Apanharmos uma granda bzaina?" Joana, voltando para a cozinha: "Mas não já, né? Queremos conviver um cadinho antes de perdermos o norte, né?" Magda fica imóvel e um pouco cabisbaixa. Joana, estranhando a amiga, chega-se ao pé e agarra-lhe as mãos: "Então, fofa, que se passa contigo? Preparámos um jantar, vamos ter as amigas e talvez uns gajos bons, porque ficáste assim de repente?" Magda vacila com o olhar entre a amiga e o chão: "Nada... é só que... nada, esquece." Joana não se fica: "Nada, esquece?! Achas que sim?" Joana segura mais forte as mãos de Magda: "Meu amor, vais-me contar o que se passa contigo e vais ficar bem, que temos uma festa pra curtir! Que foi? Conta-me." Magda não se demora: "Eu convidei-o." Joana confusa: "Convidáste-o? Quem?" Mas logo entende, arregalando os olhos: "O Patrick? Convidáste o Patrick?" Magda assenta com a cabeça. Joana espantada: "Porquê? Pensava que já o tinhas ultrapassado! Porque o convidáste? És louca?!" Magda: "Por isso mesmo, Joana! Ultrapassei-o, já não choro por ele, e quero provar-me isso a mim própria! Entendes? Afinal ele continua a ser um conhecido meu... um amigo, caramba! Não quero passar muito mais tempo a ser forte, como toda a gente me pede! Quero ser normal, por isso convidei-o e, se algo não me correr bem, sei que estás cá para me ajudar..." Joana reflecte nas palavras da amiga, depois abraça-a: "Ok, querida... Desculpa, tens razão... essa coisa de se ser forte para aguentar o fim de uma relação já farta. E sabes que mais? Estou contigo para te amparar, caso te vás abaixo quando ele chegar. Podes contar comigo, amiga..." Desfazendo o abraço e olhando-a nos olhos: "Vá, agora vamos tratar de vestir-nos, sim? Já arranjei a sala toda e pus a mesa. Só faltamos nós." Magda sorri. As duas dirigem-se para o quarto, quando a campainha toca. Joana vira em direcção à porta: "Vai lá vestir-te que eu abro a porta!"

Magda, entrando quarto adentro, fecha a porta atrás de si e começa a olhar para os conjuntos de roupa em cima da cama já preparados e seleccionados entre tantos do armário. Enquanto escolhia dos poucos já pré-seleccionados, repensa se fez bem em querer ver o ex para superar as dores do passado. Mas já não podia voltar atrás, pois de entre os ruídos de vozes que vinham do hall de entrada apercebeu-se logo da voz de Patrick. Joana entra de rompante no quarto: "Pronto, já pus o pessoal à vontade, agora sou eu que me vou vestir. O teu Patrick foi dos que veio neste primeiro grupo. Deve estar cheio de vontade de te ver!" E olhando para os conjuntos em cima da cama: "O que é que tens pra mim, querida?" Magda vira-se de costas, para Joana lhe correr o fecho do vestido que escolheu: "Qualquer um... escolhe. Se bem que eu gostava de te ver com esse vermelho. Veste lá..." Toca a campainha de novo. Joana: "Deixa estar, eu disse ao pessoal que entrou para tratarem do resto dos convidados. Eles arranjam-se. Vou vestir este, que tal?", colocando o vestido em frente ao corpo e vendo-se no espelho. Mas Magda não estava com a cabeça aí: "Eu vou lá! Que anfitriã seria eu se deixásse o outros tratar da entrada? Já venho..." E sai num ápice. Joana vira-se repentinamente: "Fogo... esta miúda tá mesmo acelerada...!"

A caminho da porta da entrada, Magda passa pela porta da sala e fica com o coração em sobressalto, quando por milésimos de segundo avistou Patrick sentado no sofá conversando com outros. Abre a porta a outra dúzia de convidados, indica-lhes atabalhoadamente a direcção da sala, e esgueira-se para a cozinha, onde enche nervosamente um copo de água e bebe. Ouve passos vindos do hall e, pensando serem os passos de Joana, desabafa, ainda de costas para a porta, vazando mais água no copo: "Acho que cometi um erro, Joana..." Mas era Patrick que, parando à entrada da cozinha, tenta desculpar-se: "Não sou a Joana, mas... posso-te ajudar com o erro?" Magda vira-se de repente, envergonhada da situação, que a deixa totalmente desnorteada: "Ãh?! Patrick! Olá! Tás bom? O quê? O erro? Não, nada! Esquece! É uma cena minha e da Joana! Tás bom? Queres tomar alguma coisa?" Patrick também ele não se sente à vontade: "Desculpa, não te queria perturbar, eu... se calhar vou voltar para a sala... ou se quiseres vou-me embora, e vemo-nos outro dia..." Magda começa a assentar as ideias, quando entra, cozinha adentro, um casal amigo de ambos. Diz ele: "Ei pessoal! Comé qué? Há farra ou não? Que é que estão a fazer aqui na cozinha? Magda, vou tirar um copo pra beber um golinho do excelente vinho que tens ali na sala, tá bem?" "Claro, tás à vontade, prateleira de cima...", responde-lhe Magda. Teresa desculpa-se do namorado: "Ele já veio aquecido do bar, Magda, sabes como é, né? E agora aturá-lo a noite toda? Só eu é que sei!" Entretanto, ambos Patrick e Magda atentam, surpresos, à caneca que o namorado de Teresa tira da prateleira. Tentando perceber se era da bebedeira ou se estava mesmo a ver bem, observa atentamente a caneca: "Ó pessoal... isto tá tudo rachado ó é impressão minha?! Porque é que não deitas isto pró lixo, Magda?" Instintivamente, Patrick exclama: "Não!!" e olha para Magda, transmitindo-lhe a visão da caneca, e lembrando-se de quatro anos antes, quando namoravam... aquela era a caneca oferecida por ele a ela, cor-de-rosa com um coração embutido representando o amor de ambos, mas mais tarde estilhaçada no chão entre discussões de uma relação a caminhar para a ruína. Aquela caneca estar ainda viva, ainda para mais recuperada pedacinho a pedacinho com cola, significou muito para ele naquele instante... Sentiu um misto de emoções no peito e, ignorando a presença do casal amigo, dirige-se a Magda: "Guardaste-a esta tempo todo? Pensava que já não existia...!"

Joana, vinda do quarto, entra ela também na cozinha e percebe o filme todo: "Ai... Só cá faltava esta... Patrick, por favor, vai para a sala, não comeces a baralhar a Magda." Mas Magda estava já mais segura de si: "Deixa, Joana, afinal era isto que eu queria, enfrentar a minha insegurança.", e vira-se para Patrick: "Sim, colei todos os pedacinhos e guardei-a porque, apesar de termos acabado mal, tivémos tempos bons, e eu quero lembrar-me das coisas boas, não por ti ou por nós, mas porque, fazendo parte da minha vida, não havia modo de apagar da minha mente, pelo que preferi cuidar dos meus sentimentos... e da caneca." Olham-se todos entre eles, esperando alguém falar... O bêbedo rompe o silêncio: "Ó iéééé!! Assim é que é! Nunca fizéste isto por mim, amor!" Responde-lhe Teresa: "Txii... Tinhas de ser o dobro de homem que és, para isso acontecer!" Patrick interrompe: "Magda, isso quer dizer que poderá eventualmente haver ainda algo entre nós?" Joana leva a mão à cara: "Ai Jesus..." Magda sorri com a reacção da amiga do peito e, virando-se para Patrick: "Isto quer dizer que eu superei os meus fantasmas, e sinto-me agora à vontade com a minha vida e os meus sentimentos, Patrick. Somente e nada mais. Espero que consigas o mesmo à tua maneira." Desencostando-se da bancada da cozinha, passa pelo namorado de Teresa, tira-lhe a caneca da mão, que tanto trabalho lhe deu a reconstruir e, caminhando para fora da cozinha: "Vá pessoal, vamos lá, que agora temos uma festa para curtir!"

20 de fevereiro de 2013

Bilhete de ida

Este é o resultado das sugestões da PepperGirl♥ e da béu. Obrigado meninas pelas ideias. Espero que esteja do vosso agrado.

"Mas porque é tão difícil para ti entenderes isso?!", perguntou-lhe Jaime quase em jeito de grito. Ela apenas olhou para trás, continuando a caminhar a passos largos para o terminal que fazia a última chamada dos passageiros para o vôo Lisboa - Paris. Cansara-se de explicar. Havia sido assim há já umas semanas, depois de acabarem namoro. Não valia a pena baterem na mesma tecla. E ambos sabiam disso. E sabiam que deviam afastar-se. O amigo deles, que os tinha acompanhado ao aeroporto, pôs a mão sobre o ombro de Jaime: "Deixa-a ir. Vocês precisam disto, sabes bem." Mas Jaime não suportava ver o que estava a acontecer. Soltando-se da mão de Artur, começou a correr em direcção à sua amada: "Sara! Espera!" O segurança barrou-lhe o caminho: "O seu bilhete?" Sara já havia entrado no corredor que levava ao avião. "Não tenho, só quero falar com a minha ex, que já entrou", respondeu Jaime apressadamente. "Lamento, senhor, não pode entrar", disse o segurança. Mas Jaime, assustado com o facto de Sara estar a segundos de levantar vôo e não mais a ver, agarrou o segurança pelos colarinhos e, com os olhos enraivecidos, gritou: "O que faria você se o seu amor estivesse a abandoná-lo?!" Surpreendido com a reacção, o guarda rapidamente pega no transmissor rádio que tinha à cintura e pede reforços urgentemente. Jaime desespera, larga o segurança, e corre pelo corredor adentro, em direcção ao avião. À porta estavam duas hospedeiras de bordo que, vendo Jaime enlouquecido em direcção a elas, exclamam, assustadas: "Calma, senhor! O seu bilhete?" Sem responder, Jaime passa por entre as duas, quase as derrubando, entra no corredor central e, não vendo Sara entre tanta gente sentada, grita o nome dela, quando entretanto já mais seguranças haviam entrado a bordo, agarrando Jaime pelos braços: "Você vem connosco para a esquadra!" Do fundo do avião, uma voz feminina: "Esperem por favor!" Aproximando-se de Jaime e dos seguranças, Sara continua: "Ele é meu amigo. Por favor não o magoem." Os guardas replicam: "Menina, este rapaz violou regras de segurança. Temos de agir." Vindo do cockpit, o comandante do avião, já experiente e de idade avançada, fala aos seguranças: "Deixem-nos entenderem-se. Por outras experiências, sei bem que será mais fácil assim para todos, e também só tenho de levantar vôo daqui a 10 minutos. Temos tempo." Os guardas olham-se, sem saber o que fazer, e deixam Jaime explicar-se, já a soltar as primeiras lágrimas: "Sara, eu não te quero chatear. Só queria perceber como posso ser teu amigo, porque não sei, e pelos vistos tu sabes, pois parece que não te custa..." Sara toma o seu tempo e, sempre mirando a profundidade dos olhos chorosos de Jaime, responde carinhosamente: "Não digas isso. Custa-me, Jaime. Custa-me a ponto de eu ter de ir para outro país para me distanciar de ti. Não vês o quanto me custa? O nosso amor não tem salvação... Eu tento ao menos salvar a nossa amizade, para ver se não enlouqueço. É isso o quanto me custa..." Como uma varinha de condão, as doces palavras de Sara acalmaram o coração de Jaime que, sorrindo dolorosamente, respondeu: "Obrigado, Sara... Estarei sempre aqui para o que precisares..." Sara sorriu e verteu ela também uma lágrima pelo rosto: "Eu sei que sim. Obrigado." Sabendo o que passava pela mente de ambos, Jaime relaxou, soltou-se dos seguranças, recuou pé ante pé, sempre olhando nos olhos de Sara, levou a sua própria mão aos lábios, e soprou-lhe um beijo. Sara agarrou o beijo com a mão e encostou-o ao peito, ainda mais sorrindente e de lágrima a escorrer. Os guardas perceberam que o problema havia acalmado, pelo que deixaram Jaime sair pelo seu próprio pé. Voltando ao interior da sala de espera do aeroporto, Artur corre ao seu encontro: "Então meu? Que se passou? Tás bem? E a Sara, onde tá?" Jaime pôs o braço sobre os ombros do amigo e, continuando a caminhar para a luz do dia fora do aeroporto: "Meu amigo... acho que compreendi a amizade..." Dizendo isto, convenceu-se ainda mais do sentimento que havia entre ele e Sara, e percebeu que nunca mais a perderia, apesar da distância a que iriam ficar.

14 de fevereiro de 2013

Feliz dia dos desnamorados

Não percebeste o porquê. Ainda havendo amor e carinho entre nós, a relação piorava de dia para dia. Agora que penso nisso, nem eu percebi porquê.
Sei que, largando tudo nesta vida, apenas resta o amor. Nada mais permanece, mas ele, o amor, não morre. Por mais que me odeies e eu te deteste, por mais que eu me zangue e tu me vires as costas... há amor. Tanto que nem sei se não é esse o problema. Talvez não saibamos lidar com ele. É como deus, do qual tanta gente fala. Onde está ele, quem é ele, porque não o vejo? Assim é o amor, maior que tudo o que existe e todos alcança.
Hoje estamos separados, longe do olhar um do outro, e queremo-nos juntos mais que tudo. E ainda assim, se nos juntarmos, tudo cai de novo. Trazemos vento ao castelo de cartas do amor... e este desaba. Ambos sabemos disso, mas não sabemos o porquê... Maldito amor que nos afasta. Bendito amor que nos une. Amor... hoje estou só, tu não sei com quem estás...

10 de fevereiro de 2013

Estavas lá

Quanto tenho de andar para até ti chegar? Naquela que era a floresta encantada, avançaste a passos largos para que eu te perdesse o norte... E conseguiste. Não mais te encontrei, mesmo continuando a procurar, atrás de árvores, debaixo de amontoados de folhas, atrás de arbustos... nada. Apenas o crepitar de alguns ramos que eu pisava e alguns chilreares perdidos nas folhagens davam o seu ar. Que momento e local errados para iniciares tal brincadeira, querida... Começo a perder a graça, o assunto torna-se sério... O sol já quase posto está. A luz diminui a ponto de eu quase nada ver. Começo a tactear cegamente, sentindo os troncos e as rochas esfriarem sem clemência. Dou passos cada vez mais curtos, por entre relevos estranhos a meus pés... ... até deixar de sentir o chão! Sem equilíbrio para recuar, nem nada a que me agarrar, uma sensação de vazio enorme em meu redor fez-me cair no que parecia ser um buraco sem fundo, escuro, e sem piedade! A sensação do vazio avassalou-me! Os meus gritos nem os ouvia, do sufocado que me sentia!
O impacto foi bruto, quando o chão alcancei! "Estou acabado", pensei. Lentamente fui abrindo os olhos... e flectindo os braços para levantar o corpo do chão... de madeira, pelos vistos. Olho em frente, uma mesinha de cabeceira... Olho à direita, uma cama... com um lençol ainda esticado até à minha cintura...
"Voltaste a ter um pesadelo, tontinho?" - perguntas-me tu, deitada de lado, destapada pelo lençol que puxei para o chão, e com um sorriso gozão na cara: "Vem cá que eu acalmo-te." Começando eu a pôr o cérebro no sítio, ainda com os olhos semicerrados, subi lento de moleza para a cama, agarrei-me ao teu colo, e silenciosamente agradeci ter-te encontrado! Voltei a adormecer, feliz da vida, enquanto me fazias festinhas, abraçada a mim. Assim vale a pena cair...